A Caça (2012) | Infâmia (1961)

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Crônicas atemporais sobre o convívio em sociedade, abordam com competência e sensibilidade a calúnia e a difamação por crianças, de difícil contestação pela crença de que ‘criança não mente’, colocando-nos frente à tendência do ser humano a julgar e o quão frágil é a credibilidade.

Ambos os filmes exploram a estigmatização injusta de adultos inocentes, em distintas circunstâncias – em ‘A Caça’ (2012), um homem é perseguido pela sugestão de abuso sexual feita por uma menina inocente; em ‘Infâmia’ (1961), duas professoras são discriminadas pela insinuação de homossexualidade feita por uma menina maldosa.

Reflexivos e sombrios, com temática forte e provocativa, criticam o comodismo e o senso de justiça deturpado da sociedade – com conclusões precipitadas e infundadas. São um alerta à presunção de veracidade em histórias sérias contadas por crianças, que devem ser tratadas com muito cuidado. Um erro pode ser irreparável.

Para Luiz Santiago, na crítica de ‘A Caça‘, “O estigma após a acusação é uma maldição eterna. A dúvida, que geralmente faz parte das relações humanas, certamente é bem maior em casos assim, e por mais que não tenha feito nada, o próprio acusado se estigmatiza, achando-se uma caça em meio à matilha social… uma eficiente crônica social, que não tem a capacidade de dissecar ou resolver (longe disso!) uma histeria de nosso tempo, mas com certeza traz à mesa as cartas para uma discussão que aborda o outro lado da moeda e uma outra situação: o falsamente acusado e o falho processo de investigação.”


A CAÇA (2012) 

Jagten, The Hunt | Drama | Dinamarca, Suécia 

BLOG Jagten (2012) The Children's Hour (1961) 4

Direção: Thomas Vinterberg

Roteiro: Tobias LindholmThomas Vinterberg

Prêmios e indicações: Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, entre outros

Trailer: Áudio em dinamarquês (legendas em português)

Avaliação: IMDB_Logo_2016.svg 8,3 |  Roger Ebert 3.0 /4.0 images 94% | 93%


INFÂMIA (1961) 

The Children’s Hour | Drama | USA

BLOG Jagten (2012) The Children's Hour (1961) 5

Direção: William Wyler

Roteiro: John Michael Hayes, Lillian Hellman (peça teatral)

Prêmios e indicações: Indicado a 5 categorias do Oscar, entre outros

Trailer: Áudio em inglês (sem legendas)

Avaliação: IMDB_Logo_2016.svg 7,8 |  Roger Ebert — images 86% | 84%

 


   O preço de uma mentira e a dor da verdade. ‘A Caça’ e ‘Infâmia’ abordam a pura e simples condenação superficial; a facilidade com que uma acusação é recebida por todos, sem realmente importar a procedência dos fatos ou mesmo a negação pelo(s) acusado(s). Também uma forma de violência – que não se limita ao uso excessivo da força, mas está relacionada ao comportamento que causa dano a outro, invadindo sua autonomia, integridade física ou psicológica e mesmo sua vida. Nestes casos, pelo ostracismo do condenado levianamente.

Calúnia e difamação no julgamento precipitado

Sebastian Ramos, no artigo ‘Não faça julgamento precipitado!‘, afirma que “Todos nós, em algum momento, fomos juízes: de fato, de direito ou de futebol. Fomos ou somos juízes dos outros, nunca de nós mesmos. É difícil refletirmos para julgar nossas próprias ações. Na verdade, ninguém gosta de ser julgado, mas a todo instante estamos julgando nosso semelhante, nas suas atitudes, nos seus gestos, na sua postura, nos seus pronunciamentos, no seu silêncio, enfim, julgamos o tempo todo e por todos os motivos, até por falta de assunto. Entre os vários julgamentos, devemos ter muito cuidado com um tipo em particular: o julgamento precipitado, aquele que fazemos sem o conhecimento dos fatos causando depois arrependimento, constrangimentos e transtornos ás vezes irreversíveis.”

A calúnia é um fogo devorador, que
consome tudo em que toca, e que
enegrece o que não pode consumir.
—  JEAN-BAPTISTE MASSILLON —

Superficialidade do julgamento

No julgamento, há uma tendência a ignorar ou mesmo esquecer a essência do outro. A ‘desconstrução’ é extremamente rápida, comparativamente ao processo de ‘construção’ – analogamente à definição de vida e morte feita pelo filósofo iluminista Voltaire (1694-1778): “Necessitam-se vinte anos para levar o homem do estado de planta – em que se encontra no ventre de sua mãe – e do estado de puro animal – que é a condição de sua primeira infância – até o estado em que começa a manifestar-se com a maturidade da razão. Foram necessários trinta séculos para conhecer um pouco sua estrutura e seria necessária a própria eternidade para conhecer algo de sua alma. No entanto, não é preciso senão um instante para matá-lo.”

Todos julgam segundo a aparência,
ninguém segundo a essência.
—  FRIEDRICH SCHILLER —

Independência de julgamento

Unus quisque mavult credere, quam judicare” – “Qualquer um prefere crer do que julgar por si mesmo”, pensamento do filósofo grego Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.) – um dos mais célebres advogados, escritores e intelectuais do Império Romano, explicita o quão raros são aqueles que decidem após madura reflexão; a grande maioria anda ao ‘sabor das ondas’ e longe de se conduzir, deixam-se levar pelas ‘certezas‘ alheias.

Nada pode ser pior do que nos acomodarmos ao clamor da maioria, convencidos de que o melhor é aquilo a que todos se submetem; considerar bons os exemplos numerosos e não viver racionalmente, mas sim por imitação.

Sérgio Vaz, em ‘50 Anos de Filmes ‘, explicita as bases deste ‘comportamento de manada’: “Uma sociedade que julga e condena inapelavelmente com base em boatos, rumores, fofocas não comprovadas; que bane, expulsa, proíbe de trabalhar as pessoas julgadas e condenadas dessa maneira; que, depois de tomada a decisão de condenar, fica cega a todas as evidências de que os acusados podem ser inocentes. Em que a imensa maioria adere à condenação definida por uns poucos, em que a acachapante maioria segue feito cordeirinho as decisões tomadas por uns poucos. Que cai num clima de paranoia geral e passa a enxergar bruxas em todos os cantos.”

A personalidade criadora deve
pensar e julgar por si mesma,
porque o progresso moral da
sociedade depende exclusivamente
da sua independência.
— ALBERT EINSTEIN —

O julgamento não define o julgado, mas o julgador

O ato julgar o outro, já expressado por tantos filósofos e mestres espirituais, traduz-se numa transferência, numa projeção dos conteúdos internos – aspectos não compreendidos e imperfeições – que geram desarmonia e dor.

Se o ser humano fizesse melhor contato com seus próprios conteúdos menos nobres, talvez parasse de perder tempo tentando tripudiá-los nos outros. Somente quando toma contato com as próprias imperfeições, compreendendo e aceitando sua  humanidade e propósito de transformação interior, começa a potencializar sua humildade e respeito por suas limitações, e, por conseguinte, também pelas dos outros, pois são também humanos. O respeito pelo outro começa pelo auto-respeito.

Dentre as inúmeras citações sobre ‘projeção’, referencio particularmente Rubem Alves, por sua simplicidade: “Nós não vemos o que vemos, nós vemos o que somos. Só vêem as belezas do mundo, aqueles que têm belezas dentro de si”. Namastê!

Quem julga as
pessoas não
tem tempo
para amá-las.
—  MADRE TERESA DE CALCUTÁ —


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