Decisão de Risco (2015)

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Uma operação à distância para capturar terroristas. Um cenário de riscos, onde os protagonistas tem a compreensão exata de suas ações. Um thriller de guerra moderna – tenso, cerebral e oportuno, que nos leva a refletir sobre a origem da violência, se os fins justificam os meios e sobre o valor de uma vida.

Visão única de como o ciclo de violênca nunca acaba, foge de qualquer maniqueísmo ao explicitar as razões e dilemas de cada envolvido no processo e traz à tona importantes questões como o acesso indiscriminado a dados privados, a manipulação de informações e a persecução maquiavélica de interesses diversos.

Para David Arrais, em ‘Cinema com Rapadura, “Em uma época em que todos são grandes autoridades sobre qualquer assunto, inclusive combate ao terrorismo e política internacional, é interessante ver uma história que aborda diversos lados envolvidos, inclusive a dificuldade e as consequências de cada decisão.”


Título Original: Eye in the Sky 

Direção: Gavin Hood

Avaliação: IMDB 7,3 | Roger Ebert 3.0 /4.0 | Rotten Tomatoes 95% | 83%


  A história da humanidade é carregada de violência, o que é um paradoxo, pois ‘humanidade‘ é sinônimo de bondade e compaixão. Seja coletiva ou pessoal, de conflitos armados e genocídios ao abuso físico e sexual, à calúnia e difamação, à negligência e abandono, sem esquecer das desigualdades sociais, a violência tem gerado ao longo do tempo uma infinidade de mortes, destruição generalizada e sofrimento.

Já na Pré-história, os homens disputavam entre si espaços para garantir sua sobrevivência. Na Antiguidade, esta disputa marcou a trajetória dos povos, a exemplo dos hebreus, assírios, babilônios, gregos e romanos. O império romano foi construído sobre o sangue dos povos conquistados. As cruzadas não foram inocentes excursões ao oriente. Sem falar, é claro, da famosa ‘Guerra dos Cem Anos’, tendo como principais protagonistas franceses e ingleses.

Na Idade Moderna, o encontro das civilizações europeia e pré-colombiana das Américas, acabaram por dizimar culturas inteiras – o ‘holocausto do índio americano’, onde as armas estiveram associadas a doenças e à imposição do modo de vida ‘branco’. As revoluções francesa e russa não foram transformações indolores e pacíficas. As grandes guerras deixaram milhões de mortos.

E não esqueçamos do colonialismo europeu, segundo o qual os povos asiáticos e africanos eram incapazes de resolver seus próprios problemas e precisavam de ‘ajuda’ para alcançar o ‘progresso’ e a ‘civilização’, que não foi ‘de graça’. Milhares morreram na Índia durante os 200 anos de submissão aos britânicos, assim como em tantos outros países dominados e explorados; um desrespeito à soberania dos povos.

Os motivos para a matança são os mais diversos, desde a disputa territorial ou controle da produção de algum bem de consumo, como petróleo ou minério, até enfrentamentos ideológicos e étnico-religiosos, entre outros; certamente não isolados, mas interligados.

É proibido matar;
portanto, todos os
assassinos são punidos,
a menos que matem em
grandes números e ao
som de trombetas.
— VOLTAIRE —

As guerras internacionais mudaram. Nada de grandes conflitos mundiais, mas confrontos internos após crises de governabilidade que às vezes transformam-se em guerras civis ou disputas entre países vizinhos. De acordo com o estudo anual ‘Conflict Barometer 2017‘, realizado pelo Heidelberg Institute for International Conflict Research (HIIK), há 385 conflitos violentos e não violentos em andamento no mundo – excluídos 22 inativos, mas ainda potenciais conflitos.

O Século XXI registra um crescimento significativo do terrorismo a nível mundial – tema central de ‘Decisão de Risco’, caracterizado por ações indiscriminadas e por seu desrespeito às normas que limitam o uso da força entre os Estados – com relação à escolha de alvos não militares, à desconsideração de zonas neutras e períodos sem conflito declarado, ao uso de armas e táticas não convencionais e à imprevisibilidade dos ataques, normalmente com a intenção de provocar medo, de aterrorizar uma audiência maior do que as próprias vítimas.

Muito embora há registro desta modalidade de violência já a partir dos primeiros anos d.C, o chamado terrorismo moderno surgiu com a Revolução Francesa. A palavra ‘terrorismo’ apareceu pela primeira vez nas ‘Cartas sobre uma Paz Regicida’, onde o filósofo irlandês Edmund Burke critica aquele período, conhecido por ‘Terror’, classificando como ‘terroristas’ as perseguições e sentenças de morte na guilhotina.

Ao longo dos últimos 200 anos, o termo terrorismo já foi usado para
representar a ação de Estados e de grupos não-estatais, mas é mais associado
a estes últimos. Assim, muito embora não incluído na grande maioria dos registros de atos terroristas, que consideram o atentado de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas como o maior já praticado, o bombardeamento atômico das cidades de Hiroshima e Nagazaki ao final da II Guerra Mundial, que deixou 150 mil civis inocentes mortos e as populações japonesa e mundial aterrorizadas frente à nova tecnologia armamentista, também teria sido conceitualmente um ato terrorista.

A guerra é o maior dos crimes,
mas não existe agressor que não
disfarce seu crime com pretexto
de justiça.” 
— VOLTAIRE —

Para ‘SuperCinemaUp‘, na crítica feita a este filme, “Os conflitos bélicos sempre renderam os mais diversos embates morais, tanto que vários filósofos se debruçaram sobre esses questionamentos, desde pensadores medievais ocidentais como Maquiavel, até orientais como Sun Tzu, entre outros de diferentes épocas. O advento da utilização de ‘drones’ para atacar alvos de guerra trouxe diversas novas questões éticas sobre os comportamentos e regras desses conflitos. O quão ‘correto’ é promover esses ataques não tripulados, em que um ou mais soldados decidem ‘quem vive e quem morre’, sem um julgamento jurídico e em um país estrangeiro?

Se esses militares não colocam sua vida em risco, durante a ação, será que seus atos vão ter o mesmo impacto psicológico de um embate corpo a corpo? Até onde é justo, ético e moral essa burocratização e automatização da morte, onde ela parece mais um jogo eletrônico, controlado de uma cabine, por controles remotos. Existe alguma diferença entre os soldados que explodem pessoas inocentes, por engano ou intencionalmente, tentando atingir ‘terroristas’, para os ‘homens-bomba’ que sacrificam as próprias vidas e de outrem, em nome de religiões ou ideologias. Os fins justificam os meios? Seria certo matar ‘poucas pessoas inocentes’ para salvar “muitas pessoas inocentes”? E se o país em que vivem essas pessoas não possui ‘pena de morte’, o quão legítimo é passar por cima de suas leis, matando ‘extremistas’ ao invés de prendê-los?

Perguntas como essas não são novidade e se acirraram ainda mais após o atentado ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001. Os Estados Unidos, juntamente com outros países, invadiram nações árabes como o Iraque e o Afeganistão, com o argumento de que eles tinham ‘armas de destruição em massa’, que nunca foram encontradas. Os críticos alegam que foi por questões econômicas, como a exploração do petróleo, além do instinto de ‘vingança’ travestido de ‘justiça’. O governo Obama retirou a maior parte das tropas, mas ainda permanece em locais estratégicos, de onde operam naves ‘não-tripuladas’ em diversos ataques. Todos estes acontecimentos, entre outros, culminaram na atual crise internacional, que afeta os refugiados na Síria, contextos como a chamada ‘Primavera Árabe’ e demais nações envolvidas.”

Na guerra, a verdade
é a primeira vítima.
— ÉSQUILO —

Alguns tentam justificar e legitimar a violência revolucionária. Outros defendem a violência do Estado em nome da ordem. Violência é violência. Nenhuma faz sentido. Todas assassinam, de alguma forma, inocentes indefesos. Todas geram um ciclo de frustração e ódio contra o agressor, que se perpetua de geração em geração.

A violência faz-se passar sempre

por uma contra-violência, por

uma resposta à violência alheia.

— JEAN-PAUL SARTRE —

A violência tornou-se a realidade do ser humano, que sente-se constantemente ameaçado. É preciso quebrar este ciclo de ódio e vingança e, para isso, torna-se fundamental o entendimento de que ódio não acaba com ódio. Renunciar à vingança é um ato de nobreza e o primeiro passo a ser dado é cada um tomar consciência de sua violência interior, pois o externo é um reflexo do interno. Namastê!


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